Andar a pé

O extraordinário Luiz Gonzaga, pernambucano de Exu, cantou na música Estrada de Canindé: Vai oiando coisa a grané / Coisas qui pra mode vê / O cristão tem qui andar a pé. A comodidade do veículo motorizado nos tirou o costume de andar a pé e, tão grave quanto isso, de ver as coisas importantes da cidade. Passamos para lá e para cá e não vemos nada direito. Isso é particularmente ruim numa cidade como o Recife (a capital mais antiga do País!), bonita e cheia de referências históricas de grande relevância.Em seu famoso livro sobre a história pitoresca do Recife antigo (que não se referia só ao Bairro do Recife, equivocadamente hoje chamado de “Recife Antigo”, como se várias outras partes da cidade também não fossem antigas), o escritor Mário Sette usou o termo arruar para esse tipo de passeio cultural que se ocupa de “ver apenas, não! Sentir a cidade. Evocar seu passado, partilhar seu presente, sonhar com o seu futuro”.Mário Sette, escrevendo em 1948, vai direto à questão, como se fosse nosso contemporâneo: “Hoje, já não se sabe arruar direito. Anda-se, ou melhor, corre-se pelas ruas. Os meios de transporte não favorecem esse prazer dos antigos. O automóvel e o ônibus passam rápidos, indiferentes, ignorantes. Não importa o percurso; interessa apenas o término. O rio, as árvores, o templo, a rua, a estrada, o sobrado, o tipo popular, a ponte, o nome local, que fiquem depressa para trás. Não se arrua mais. Chispa-se, voa-se…”. A única diferença é que, ultimamente, por conta do excesso de automóveis, a velocidade vem diminuindo significativamente. Em vários locais e em horas diversas (até em altas horas da noite…), nem o consolo da velocidade temos mais: ficamos engarrafados, sem muito que fazer a não ser ficar com o olhar impotente pela janela, a impaciência pelo tempo perdido e o compromisso atrasado…Mas não pense, caro leitor, que estou aqui, romanticamente, a advogar o impossível. Sei muito bem, por ser andarilho nas horas vagas, dos perigos e incômodos que espreitam os caminhantes incautos: a falta de segurança; as calçadas intrafegáveis; os motoristas desrespeitosos; o clima desfavorável (dependendo da hora e da época do ano, variando do excesso de sol e calor à chuva torrencial acompanhada de grandes e intransponíveis alagamentos); a sujeira; as agressões injustificáveis ao patrimônio histórico, paisagístico e arquitetônico; etc. Por favor, não me tomem por ingênuo. O que tento defender é um princípio. O princípio da apropriação do espaço urbano pelo pedestre atento e engajado, observador da história e da vida da cidade onde habita, do bairro onde mora. Uma apropriação que evite, quando somos forçados a andar, como disse Mário Sette, ir “[…] por aqui, por ali, a esmo, abstratos, guiados pelo hábito, sem atentar, como devêramos, no encanto deste trecho, na claridade desta manhã, no colorido deste acaso, na harmonia deste movimento, no feitiço deste pitoresco”. Que evite sermos, “[…] no cenário de nosso nascimento e de nossa vida costumeira, quase uns estranhos à sua história, às suas tradições, à sua poesia”.Sei das limitações e não estou propondo desconsiderá-las. Mas estou certo de que foi a nossa ausência das ruas que as fez serem tomadas pelo indesejável. Proponho um retorno a elas, com cautela e atenção, mas com determinação e bem-querer à cidade. Aliás, isso já vem, de alguma forma, acontecendo, basta ver a quantidade crescente de pessoas que começa a passear (e não apenas transitar ou se exercitar) pelas ruas nos sábados, domingos e feriados. Ainda é pouco, mas já dá para ver que começam a considerar que, como recomendou o escritor francês Marcel Proust, “A viagem de descoberta consiste não em achar novas paisagens, mas em ver com novos olhos”.

Por: Francisco Cunha

Matéria Publicada na Revista Algo Mais em 01.06.2008

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