Olinda, segundo Gilberto Freyre

“Não se pode falar de Olinda, esquecendo sua luz. Não sua luz elétrica: mas a sua luz de sol. É ela que dá às águas do mar que se vêem do alto de qualquer dos oito montes de Olinda e aos montes da cidade que se vêem do alto-mar, vindo de vapor da Europa ou dos Estados Unidos, do Norte ou do Sul do Brasil, a riqueza extraordinária da cor que encantou o alemão Gunther e já tinha encantado o pernambucano Joaquim Nabuco.
Para Nabuco, a beleza de Pernambuco vinha principalmente de sua luz. Tudo que ele exalta, em página célebre, na paisagem de Pernambuco, em geral, e na de Olinda, em particular, é efeito de luz: o céu que não é o mesmo um minuto; o mar que está sempre mudando de cor; o brilho metálico do espanador de coqueiros; a sombra rendada das jaqueiras e mangueiras. É ainda a luz: o céu que não é o mesmo um minuto; o mar que está sempre mudando de cor; o brilho metálico do espanador de coqueiros; a sombra rendada das jaqueiras e mangueiras. É ainda a luz que deixa ver o fundo da areia do Beberibe tornando outrora tão gostosos os seus banhos. Que dá vida à ruínas sufocadas pelos matos.
Que dá brilho aos azulejos velhos das sacristias, dos corredores de convento, das frentes dos sobrados, mas não deixa que eles nos doam cruamente nos olhos! Que não deixa que os vultos dos mosteiros e das igrejas dominem Olinda com abafados de sombras duras, negras e tiranicamente clericais, povoadas de corujas e morcegos, mas que adoça-as em sombras tão boas que não há, no meio delas, quem se sinta brasileiro sem se sentir, ao menos por um instante, ou, pelo menos franciscanamente, católico. Não só as árvores, como os passarinhos e as crianças, tem de Olinda uma intimidade com as igrejas velhas que em poucos lugares será tão grande; e tudo por causa da luz que faz a natureza estar sempre refrescando a tradição; que dá coragem às lagartixas para passearem pelos pés dos São Bentos mais sisudos; coragem aos passarinhos para pousarem nos São José dos altares, nas próprias coroas de ouro das Nossas Senhoras.
Que luz é esta – a que dá a estes montes, a estas praias, a estas águas, e às suas casas, às suas igrejas, às suas barcaças a vela, uma doçura que nem toda luz tropical dá às coisas e aos homens? Que faz dizer um homem alemão, e um homem de ciência viajando, conhecedor de outras terras dos trópicos: “quem sentiu uma vez o encanto desta luz se sentirá sempre tentado a voltar a estas latitudes”?
Será por causa dela – dessa luz -, que os habitantes desta parte do Brasil são tão fiéis ao seu torrão”, reparou o alemão de sua cadeira de balanço no Mosteiro de São Bento. A luz do sol no Brasil – escreve ainda o Professor Gunther, referindo-se principalmente a Pernambuco – parece ter uma qualidade diferente da luz do sol na Índia. “É que na Índia, observou ele, os raios amarelos parecem ser predominantes. Daí ser preciso, quando se tiram fotografias, dar exposição mais longa do que no Brasil ou na Europa.” …
*****
…”Muita casa de praia em Olinda dá a frente para o mar. Tem terraço. Expõe-se gostosamente aos ventos. Outras ainda dão-lhe as costas ostensivamente. Desprezam o mar e a praia, como nos velhos tempos coloniais, em que nas praias se faziam os despejos, se abandonavam esteiras com doentes, os bichos mortos e até os negros que morriam pagãos. Foi numa praia, perto de Olinda, que Maria Graham, voltando a cavalo da velha cidade para o Recife, viu um cachorro profanando o corpo de um negro mal enterrado pelo dono. Isto, em 1821. Olinda pareceu à inglesa extremamente bela vista do istmo e da praia pela qual, indo do Recife, chegou até ao pé dos montes da primeira capital pernambucana.
Naqueles dias nem Olinda era mais ilustre pelos seus montes, onde outrora o Padre Vieira ensinara Retórica e morava a melhor nobreza da capitania, nem suas praias de banho tinham feito o antigo burgo de fidalgos recuperar um pouco do antigo esplendor. Era só decadência e tristeza. O Seminário de Azeredo Coutinho e o antigo Colégio dos Jesuítas, quase em ruínas. Ainda não se instalara a Escola de Direito do Mosteiro de São Bento.
A inglesa da praia, do alto do seu cavalo, olhou para os montes e lamentou o declínio da velha cidade, onde já não residiam ricos homens, nem pessoas importantes: todos se tinham transferido para o Recife. Notou a catedral, os conventos, o palácio do bispo, as igrejas.
Pareceram-lhe as igrejas de arquitetura nobre, ainda que sem elegância: (“… of noble, through not elegant architecture ”), que um Claude ou um Poussin poderia ter escolhido.
“Algumas em saliências abruptas de montes; outras no alto de campinas que desciam docemente até as praias. Quase todas as igrejas, cinzentas ou amarelas, os telhados vermelhos. Uma ou outra com a torre revestida de azulejos. Tal a Olinda na sua fase mais triste – já despovoada de fidalgos e de jesuítas e ainda sem mestres e estudantes de Direito – que Maria Graham viu em 1821. Os montes desprestigiados: sem preleções de Vieira, nem praças de touros, nem audiências brilhantes do capitão-general; e as praias sem o prestígio que só se acentuaria no fim do século XIX e no princípio do atual, quando se tornaram as mais elegantes de Pernambuco e deram um novo brilho a Olinda. Prestígio que dura até hoje, apesar da competição de Boa Viagem, depois de ligada ao Recife por uma avenida de que a alta burguesia recifense se orgulha tanto. ”
(Fragmentos do livro Segundo Guia Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira , de Gilberto Freyre/ Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro 1968).
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s